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Proposta de Micro-Análise Multimodal de Interação Face a Face

Ana Paula Lopes

No contexto de uma interação, não é apenas através da fala que se transmite mensagens, mas todo o corpo comunica em simultâneo. Raras serão as interações em que os participantes não executam gestos, não movimentam a cabeça, o tronco ou os membros inferiores. Comunicamos de forma constante e permanente, mesmo quando em silêncio. Por vezes, o silêncio pode transmitir mais informação do que um discurso longo, e um gesto pode revelar o que a fala, voluntária ou involuntariamente, omitiu. A informação que o corpo transmite em interação é considerável e comporta dois terços das mensagens que passamos (Aghayeva, 2011). 


Com efeito, não são apenas as palavras que constituem a base da comunicação humana, mas existem outros elementos – outras modalidades[1] – que cada um de nós, enquanto falante em interação, utiliza de modo contínuo, com as mais diversas funções, modalidades estas (como os gestos, as expressões faciais, os movimentos dos membros inferiores, por exemplo) que podem adquirir funções comunicativas próprias, podendo inclusive substituir a fala (Merinero, 1996: 272). Assim, a comunicação humana assenta numa base tripla: o que dizemos, a forma como o dizemos e os movimentos que executamos ao dizê-lo (Poyatos, 1994, I:15). Com efeito, Poyatos (1994) definiu a estrutura básica da comunicação humana assente em três vertentes: a linguagem, a paralinguagem e a cinésica. Todos estes componentes formam parte integrante do processo comunicativo e é esta estrutura tripla que nos permite que a comunicação se realize num todo, plenamente e de forma eficaz. Não ter em conta um destes três elementos da estrutura quando analisamos uma interação ou quando tentamos compreender uma mensagem que nos é transmitida dificulta e empobrece de forma substancial a concretização dos nossos objetivos comunicativos (Merinero, 1996: 272). Deste modo, ignorar o que transmitimos através dos movimentos que executamos em interação, por exemplo, é ignorar uma grande parte do que comunicamos (Jones e LeBaron, 2002: 512). Estamos, portanto, pera nte um processo bastante complexo.


A génese do presente trabalho assenta, por um lado, no interesse por esta complexidade inerente ao processo da comunicação humana e pelos obstáculos que podem ocorrer em qualquer contexto de interação face a face – político, organizacional, institucional, entre outros – na interpretação das mensagens transmitidas. Por outro lado, os problemas que existem em Portugal, e também noutros países, relativamente à resolução de casos judiciais – que, não poucas vezes, conduzem injustamente à condenação ou à absolvição do réu em caso de dúvida por falta de prova – despoletaram de igual forma a realização desta investigação, uma vez que se defende aqui que, se os movimentos do corpo fossem analisados de forma científica e sustentada no âmbito de qualquer tipo de interações face a face, mas particularmente nas ocorridas em contextos forenses, talvez esta análise pudesse contribuir para outra sorte de decisões judiciais.


Os obstáculos de interpretação mencionados podem surgir em contextos de comunicação ocorridos entre indivíduos pertencentes ao mesmo grupo linguístico, isto é, indivíduos que partilham o mesmo código de comunicação e as mesmas práticas comunicativas (Hanks, 1996). Mas os mesmos obstáculos podem também surgir em contextos interculturais, ou seja, em interações realizadas entre indivíduos oriundos de diferentes comunidades linguísticas, não partilhando, assim, a mesma língua, os mesmos costumes, as mesmas regras gerais de comunicação. Desta forma, e dentro do complexo processo comunicativo, devemos igualmente ter em conta o conceito de cultura[2], que Poyatos define como uma série de hábitos partilhados pelos membros de um grupo que habita um espaço geográfico, hábitos estes que são aprendidos, mas condicionados biologicamente (Poyatos, 1994, I: 25). Deste modo, e nestes últimos contextos, não será difícil de compreender que a possibilidade de ocorrência de mal-entendidos aumenta de forma considerável e que, dependendo da situação comunicacional, as consequências destas interpretações erradas poderão ser prejudiciais para os participantes em causa.


Tais situações de mal-entendidos podem acontecer, pois a forma de comunicar de cada comunidade linguística, no geral, e de cada indivíduo, em particular, é única: o modo como expomos o nosso pensamento, como executamos gestos, como movimentamos o nosso corpo em interação, como nos posicionamos no espaço, depende sempre de quem somos e de onde provimos – da nossa circunstância única de ser. E esta forma idiossincrática de comunicar é transmitida num todo, uma vez que comunicamos de modo permanente através de um composto multimodal. Por outras palavras, modalidades como a fala, as expressões faciais, os movimentos que executamos com a cabeça, tronco, pernas, mãos e braços – algumas das várias modalidades que integram o processo comunicativo e que adquirem características muito próprias em cada comunidade linguística e em cada falante – todas passam mensagens, todas comunicam, embora nem sempre com o êxito desejado[3], podendo conduzir aos mencionados mal-entendidos.


Deste modo, afigura-se como questão importante tentar evitar a existência destes mal-entendidos ou de dúvidas na interpretação de uma mensagem transmitida em qualquer contexto de interação face a face e, no âmbito do presente trabalho, particularmente em contextos em que pode estar em causa uma decisão justa sobre a absolvição ou a condenação de um indivíduo. Parece importante que a comunicação seja efetuada com eficácia, independentemente do contexto de interação, podendo as mensagens ser interpretadas da forma mais correta, ou seja, indo ao encontro da verdadeira intenção do falante.


Por conseguinte, surgiu o interesse em tentar criar uma ponte entre a área dos Estudos do Gesto – que analisa, entre outros aspetos, os gestos, as suas funções e os seus possíveis significados executados em contextos de interação face a face – e os diferentes contextos de interação face a face, em particular, os contextos forenses. Se, nalguns casos, o que o suspeito, as testemunhas ou o arguido transmitiram fosse analisado, de forma científica e sustentada, tendo em conta a estrutura tripla de comunicação definida por Poyatos (1994), talvez outras conclusões pudessem ser retiradas e os casos pudessem ser julgados de outra forma.


Tendo como base o estado da arte (Estudos do Gesto), que será descrito no capítulo 1 do presente trabalho, os problemas que normalmente existem na interpretação de mensagens transmitidas nos mais diversos contextos de interação e, também, a realidade atual, sobretudo a portuguesa, do que normalmente ocorre nas interações em contextos forenses, que será descrita no capítulo 4, pareceu relevante realizar um estudo exploratório dedicado a esta mesma análise, comparando indivíduos oriundos das comunidades linguísticas portuguesa e inglesa[4]


Tem-se, pois, como objetivo o desenvolvimento e aprofundamento de uma metodologia de micro-análise multimodal dos gestos e dos restantes movimentos cinésicos[5], que poderá ser aplicada no estudo e investigação de qualquer contexto em que ocorra uma interação face a face. Esta micro-análise dos movimentos cinésicos executados em interação pretende, através da visualização de imagens registadas em vídeo e de anotações relativas à fala e aos movimentos das diferentes partes do corpo em interação feitas no programa ELAN[6], destacar e interpretar toda e qualquer informação que possa ser retirada a partir dos movimentos executados e que possa ter relevo numa possível análise de uma interação face a face, independentemente da sua natureza.


Tendo como base outras metodologias de análise de movimentos cinésicos já desenvolvidas (Galhano-Rodrigues, 2007; Zagar-Galvão, 2015), bem como estudos já realizados sobre sistematização, funções e significados dos gestos (Kendon, 2004; 2013; McNeill, 1992), teve-se como objetivo aqui aprofundar essas mesmas metodologias e estudos, analisando pormenores na execução dos movimentos cinésicos em interação – particularmente os gestos – como sendo o posicionamento da palma das mãos, a orientação dos dedos e a diferente configuração de diversos tipos de gestos. A análise pormenorizada destas características dos gestos (em simultâneo com o conteúdo dos enunciados verbalizados e o posicionamento e orientação das restantes partes do corpo, sempre que oportuno) tem como finalidade a obtenção de informação interpretativa sobre cada um dos movimentos executados em interação, informação esta que poderá adquirir importância no âmbito de uma análise pormenorizada de uma interação face a face, uma vez que, como afirmado, grande parte do que comunicamos é transmitido através dos movimentos do corpo (Aghayeva, 2011).


Pensando especificamente nos contextos forenses de interação, e apesar do que tem sido estudado sobre a relação entre a comunicação e o Direito, raros têm sido os investigadores que mencionam o papel do comportamento cinésico e a forma como o mesmo se relaciona com a fala neste tipo de contextos. Pelo contrário, e nestes contextos de interação, tem prevalecido unicamente a análise da fala, tendo sido ignorada, até ao momento, a análise dos movimentos do corpo[7] (Matoesian, 2010: 541).


No âmbito deste estudo, importava saber de que forma a maneira idiossincrática de comunicar de portugueses e ingleses poderia ser interpretada (se correta ou incorretamente) por investigadores criminais ou por juízes e advogados portugueses que interrogassem suspeitos/arguidos/testemunhas ingleses, bem como a situação culturalmente inversa. Assim, foram levantadas as seguintes questões:


§ Em que medida os juízes, os advogados e os investigadores criminais estão sensibilizados para a importância das características cinésicas dos suspeitos/arguidos que inquiram, bem como para as diferenças culturais na transmissão de mensagens por parte dos dois grupos em causa?

Esta questão levou à realização de inquéritos junto a profissionais do Direito e da aplicação da lei, nomeadamente a juízes e a investigadores da Polícia Judiciária, tendo-lhes sido perguntado:


§ Se tinham formação em relação à análise e interpretação do comportamento vocal e cinésico dos indivíduos que interrogavam?


§ Se consideram útil/pertinente a existência de uma metodologia de micro-análise multimodal para os ajudar a interpretar de forma mais eficaz, mais científica e mais credível os eventos comunicativos dos suspeitos/arguidos?


Concomitantemente, foram levantadas outras questões, numa tentativa de obtenção de resultados objetivos que pudessem comprovar as dúvidas ainda existentes no início da presente investigação, relativas a contextos interacionais em que fossem participantes indivíduos pertencentes aos dois grupos em estudo:


§ Existirão diferenças globais, facilmente percetíveis, entre o comportamento vocal (fala) e cinésico (movimentos do corpo) dos portugueses e dos ingleses?


§ Se as houver, de que forma as mesmas são interpretadas em contextos de interação entre estas duas comunidades linguísticas?

No entanto, as respostas que se conseguissem até aqui não seriam ainda totalmente satisfatórias, pois apenas permitiam apurar parte do que seria necessário e pretendido. Assim, e também por esse motivo, surgiram novas questões:


§ Que características cinésicas (movimentos do corpo) destes dois grupos se destacam nas interações intra e interculturais? Isto é, quando portugueses interagem unicamente entre si e quando interagem juntamente com ingleses, que diferenças são possíveis de apurar? A mesma questão se coloca para os ingleses.


§ E que interpretações poderão ser feitas dos movimentos cinésicos que executam em simultâneo ao discurso produzido?


§ Quais são as diferenças, ao nível do número de movimentos cinésicos executados, nomeadamente dos gestos e do tipo de gestos executados, entre estes diferentes grupos?


§ Qual é a interpretação possível de ser feita do significado dos gestos executados, em L1 e em L2, tendo em conta o seu contexto de interação?


§ Quais são as diferenças verificadas no que diz respeito ao posicionamento da palma das mãos aquando da execução dos gestos e que interpretações podem daí ser feitas?


§ É possível perceber, em contextos de interação em L1 e em L2, se existem gestos que transmitem mais informação do que aquela que foi verbalizada?


Tendo sempre presentes os objetivos acima elencados, nomeadamente a meta de tentar evitar interpretações incorretas de mensagens passadas em interações face a face, bem como o intuito de dar resposta às questões apresentadas, foi realizado o presente estudo, que está dividido em três partes:


Na primeira parte, correspondente ao capítulo 1, disserta-se sobre as premissas que regem os Estudos do Gesto, a área que serve de base teórica para a presente investigação. Esta é uma área científica que perspetiva a comunicação como multimodal e que tem vindo a estudar as diferentes modalidades do corpo em pormenor e tudo o que diz respeito às suas funções nas interações face a face. De todas as modalidades existentes, os movimentos dos membros superiores (mãos e braços) são aqueles que têm merecido mais atenção e destaque por parte dos investigadores, movimentos estes globalmente designados por gestos. 


Foram igualmente estes os movimentos do corpo aos quais foi dado mais relevo no presente estudo. Primeiramente, neste capítulo 1, foi elaborado um percurso histórico da área, tendo sido também salientados os principais investigadores que se interessaram pelo estudo do gesto ao longo dos séculos – desde Quintiliano até Kendon, passando também por McNeill e vários outros autores. Foram, de igual modo, destacadas as principais matérias em estudo até ao momento presente, bem como os principais conceitos dos Estudos do Gesto. Foi conferido particular enfoque aos trabalhos desenvolvidos por Kendon (2004; 2013) e McNeill (1992), embora outros autores tenham igualmente sido mencionados pela importância das suas investigações (Ekman e Friesen, 1969; Poyatos, 1993; 1994; 2002; Kita, 2003). Todos os conteúdos descritos e analisados neste capítulo foram destacados, entre outros que o poderiam ter sido, devido à sua particular relevância no contexto do presente trabalho, relevância esta que será explicada e justificada ao longo do capítulo 1, sempre que oportuno.


Para finalizar esta primeira parte, foram ainda abordadas questões relativas às Ciências da Cultura e às Ciências Cognitivas, em que se abarcaram assuntos como a relação entre o indivíduo e a cultura e o indivíduo e a cognição, e conceitos como a memória, as expectativas, a empatia, os preconceitos e os pressupostos de cada falante, fatores sempre presentes em cada interação. Considerou-se importante abordar estas matérias e conceitos, uma vez que são inerentes a qualquer indivíduo e adquirem influência no decurso de qualquer interação face a face, quer intra quer intercultural.


Na segunda parte do trabalho, englobando os capítulos 2 e 3 – uma parte de cariz prático de análise dos estudos de caso realizados no âmbito da presente investigação –, procurou desenvolver-se e aprofundar-se a metodologia acima mencionada de micro-análise multimodal dos movimentos cinésicos executados em contexto de interação. No capítulo 2, descreve-se a estrutura e a metodologia de análise seguidas neste estudo, numa tentativa de criar uma ponte entre a parte teórica anteriormente descrita e apresentada e a subsequente parte de análise prática. No âmbito desta parte prática, e no capítulo 3, apresenta-se, de forma pormenorizada e sustentada, a análise e a descrição dos estudos de caso realizados no âmbito do presente trabalho, bem como as respostas às questões de investigação que foram sendo colocadas ao longo do processo e que têm vindo a ser elencadas neste capítulo introdutório.


Deste modo, foi realizado um primeiro estudo experimental, com intuito de tentar responder às questões seguintes:


§ Existirão diferenças globais, facilmente percetíveis, entre o comportamento vocal (fala) e cinésico (movimentos do corpo) dos portugueses e dos ingleses?


§ Se as houver, de que forma as mesmas são interpretadas em contextos de interação entre estas duas comunidades linguísticas?


No âmbito deste primeiro estudo, foi filmado, por um lado, um grupo de falantes ingleses interagindo entre si e, por outro, um grupo de falantes portugueses em igual contexto de interação. Dada a pouca qualidade de som e de imagem dos vídeos – que mais adiante será justificada – e também tendo em conta a disposição física dos indivíduos (com apenas o tronco, os braços/mãos e a cabeça visíveis), foi somente possível efetuar uma contagem do número de gestos e de movimentos do torso e da cabeça executados pelos falantes em causa, com o intuito de perceber se havia diferenças relativamente a este parâmetro quantitativo.


Numa tentativa de resposta à segunda questão, foi pedido a um grupo de portugueses que, sem possuírem qualquer informação sobre o estudo em causa, nem tão-pouco relativamente aos objetivos do que lhes estava a ser solicitado (de maneira a não os influenciar nas respostas), observasse o vídeo do grupo inglês sem acesso à parte sonora e prestando apenas atenção aos movimentos cinésicos, e que afirmasse o que pensavam daquela interação: quem seria aquele grupo, do que falariam, quais as impressões gerais que deixavam passar, entre outros aspetos. Foi solicitado o mesmo a um grupo de ingleses em relação ao vídeo dos portugueses em interação, bem como ainda a um grupo de portugueses para observarem o vídeo do grupo português, e a um grupo de ingleses para observarem o vídeo do grupo inglês.


De igual forma, foi efetuado um segundo estudo experimental, para tentar responder às questões seguintes:


§ Quais são as diferenças, ao nível do número de movimentos cinésicos executados, nomeadamente dos gestos e do tipo de gestos executados, entre estes diferentes grupos?


§ Qual é a interpretação possível de ser feita do significado dos gestos executados, em L1 e em L2, tendo em conta o seu contexto de interação?


§ Quais são as diferenças verificadas no que diz respeito ao posicionamento da palma das mãos aquando da execução dos gestos e que interpretações podem daí ser feitas?


§ É possível perceber, em contextos de interação em L1 e em L2, se existem gestos que transmitem mais informação do que aquela que foi verbalizada?


Neste segundo estudo foram realizados novos vídeos, desta vez filmando grupos de três falantes: um grupo formado por três falantes portugueses, outro formado por três falantes ingleses, outro ainda formado por dois falantes portugueses e um inglês e finalmente outro formado por dois falantes ingleses e um português. Nos dois primeiros grupos, os falantes interagiram nas suas respetivas línguas maternas (L1) e, nos outros dois grupos, a interação foi realizada na língua estrangeira do falante que se encontrava em minoria de naturalidade (L2). Os objetivos foram o de tentar perceber diferenças nas características cinésicas das interações em língua materna (L1) e naquelas em que se interagiu em língua estrangeira (L2). As respostas a todas estas questões foram apresentadas ao longo do capítulo 3.


Dado que se pretende que a metodologia desenvolvida possa ser aplicada na análise de contextos forenses de interação face a face – entre outros em que a mesma poderia, de igual forma, ser aplicada –, a tentativa de dar resposta às questões primeiramente apresentadas inicia a terceira e última parte deste trabalho, correspondente aos capítulos 4 e 5, na qual se fez uma abordagem sobre os contextos forenses e onde foram destacadas e descritas questões relativas aos contextos específicos de maior relevo na presente investigação – os tribunais e os órgãos da polícia criminal –, bem como as disparidades de poder linguístico e social existentes numa sala de audiências/sala de interrogatório policial. Por fim, foram abordadas, de forma sucinta e seletiva, as Ciências Forenses que poderão relacionar-se com as matérias em estudo, nomeadamente a Psicologia e a Linguística Forenses[8]. Foram também destacados os seus principais autores e ramos de investigação de relevo para a presente análise.


Além das matérias descritas, foram igualmente abordadas nesta parte questões relativas à sensibilidade intercultural (Bennett, 2004) e à experiência pessoal e sociocultural (Damásio, 1999) de quem julga e interroga em casos judiciais, uma vez que o modo como cada um perspetiva a realidade envolvente pode influenciar a forma como pensa, julga e toma decisões – matérias importantes a ter em conta num contexto forense.


De igual modo, diversas subáreas da Linguística, como sendo a Análise do Discurso (Schiffrin, 1994), a Análise Crítica do Discurso (Fairclough, Mulderrig e Wodak, 2011), a Análise Conversacional (Schegloff, 2007), a Linguística Interacional (Levinson, 2006), a Etnografia da Comunicação (Gumperz, 1972) (cf. secção 4.9) e a (in)existência de relação entre as matérias de análise destas disciplinas e o estudo dos movimentos cinésicos em interação, foram também sucintamente destacadas nesta parte, com o intuito de salientar o que tem sido investigado nestas áreas, bem como com o objetivo de sublinhar a ideia de que a análise dos movimentos cinésicos não tem sido amplamente estudada por estas diferentes subáreas da Linguística, embora analisem o fenómeno da comunicação.


No final desta parte, estabeleceu-se uma ponte entre os contextos forenses e os Estudos do Gesto, numa tentativa de explicar e justificar a aplicação das possíveis contribuições da investigação desenvolvida na análise de casos judiciais.


Em suma, estamos perante um estudo exploratório que teve como principal objetivo tentar perceber e esquematizar as diferenças concretas existentes no comportamento cinésico entre os indivíduos portugueses e ingleses estudados, com a finalidade última de se aprofundar uma metodologia de micro-análise multimodal que poderá ser aplicada na análise de qualquer contexto de interação face a face, quer intra quer intercultural. Nos próximos capítulos, e de forma mais pormenorizada e concreta, será então descrito o que se observou, se analisou e o que foi possível apurar a partir dos estudos de caso realizados. A súmula das observações e dos resultados obtidos foi apresentada no capítulo 5, capítulo este que encerra o presente trabalho e onde se descreveram, além do que foi possível observar, tanto as limitações do mesmo como sugestões de linhas de investigação futuras.


[1]O conceito de modalidade (bem como o de multimodalidade) será definido e aprofundado ao longo do presente trabalho, sobretudo no capítulo 1.

[2]O conceito de cultura será abordado de forma mais aprofundada na secção 1.15 do presente trabalho.

[3]Muitas destas modalidades (como alguns gestos, algumas expressões faciais ou alguns movimentos da cabeça, por exemplo) são culturalmente marcadas e o seu significado varia entre diferentes grupos culturais. Estes aspetos serão devidamente descritos e explicados ao longo do presente trabalho.

[4]A escolha destes grupos, e não de outros, prendeu-se sobretudo com motivos de interesse pessoal e logístico.

[5]Embora seja objetivo do presente trabalho aplicar esta metodologia de micro-análise concretamente em contextos forenses de interação, a mesma metodologia pode ser aplicada em qualquer contexto em que se verifique uma interação face a face.

[6]O programa de anotação ELAN será descrito com pormenor mais adiante (cf. secção 2.4).

[7]O título da primeira grande obra que relaciona o discurso e a sua utilização em contextos forenses, Just Words, é um indicador de que, até ao momento, apenas se tem destacado a fala nas interações face a face ocorridas especificamente naqueles contextos (Matoesian, 2010: 541).

[8]Até ao momento, nem a Psicologia nem a Linguística Forenses abarcam no seu escopo de estudos matérias que incluam a análise pormenorizada dos movimentos cinésicos – particularmente os gestos – executados em contextos forenses de interação. No entanto, são áreas em que, futuramente, esta questão poderia vir a ser incluída.

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